Você já sorriu com uma propaganda de banco hoje?

Se tem algo que me incomoda mais que fazer xixi depois de ter esquecido de  colocar o fraudão é assistir aos belos trabalhos que meus colegas publicitários fazem com um tipo de cliente que nos dá muito prazer em usar seus serviços: os bancos, sim, aqueles que nos presenteiam com altas taxas de serviços e um dos maiores juros práticos em todo o mundo. Mas porque isso me incomoda? É simples e vou tentar discorrer um pouco sobre isso.

Trabalhar a imagem de qualquer marca é uma tarefa pouco simples. São muitas as variáveis que estão em jogo e juntos têm que estar nesta difícil tarefa o gestor da marca, posição frequentemente ocupada por um publicitário, e o departamento de marketing (outro lugar que é cheio deles) que cuida de uma série de muitos detalhes que devem estar alinhados pra não dar caca.

O problema é que os engravatados do departamento de marketing vivem muitas vezes dentro de quatro paredes numa sala climatizada e pouco sentem do que acontece no dia a dia. Eu tive um professor em uma disciplina de marketing que fiz no curso de administração enquanto finalizava minha graduação em publicidade na UNIMEP que ilustrava de forma brilhante isso. Ele dizia que a qualidade de um gestor de marketing pode ser medida colocando um termômetro em sua cadeira. Se estiver com baixa temperatura, ok, ele pode (eu disse “pode”) ser um bom gestor de marketing. Agora, se seu traseiro permanece acomodado sobre as almofadadas cadeiras, a temperatura fica alta e acende a luz vermelha. Esse cara talvez não viva a realidade do mercado, talvez não saiba o que acontece lá embaixo. Fazer marketing é muito mais do que sentar para pensar e planejar, fazer marketing inclui conversas com os consumidores, com os vendedores, com prestadores de serviço lá onde a coisa acontece.

Voltando ao banco, a gente vê o resultado na ponta do iceberg que é a que de fato aparece, a propaganda. Belas peças publicitárias com promessas de fazer as pessoas felizes, de realizar todos os sonhos compráveis possíveis podem não passar de um teatrinho pra te enganar. Seja através de uma encenação de uma família que comprou um novo apartamento financiado pelo banco S ou  o banco I que se preocupa com a natureza e para provar isso mostra um bebê doidão rasgando um pedaço de papel. Tudo isso é conversa bonitinha pra conduzir alguém ao banco.

Este arsenal pode parecer bonito e verdadeiro aos olhos daqueles que não entendem o jogo e não sabem que a propaganda nem sempre se resume à beleza e às poucas palavras de um discurso publicitário muito bem pensado mas que está ali vendendo uma ilusão, vide as letrinhas pequenas que se escondem no rodapé dos comerciais. Esta “venda da ilusão”  é comentada com muita propriedade pelo contestado fotografo Oliviero Toscani eu seu livro A Publicidade é um Cadáver que nos Sorri. Sim, por mais duro que seu discurso possa parecer, muitas vezes maquiamos cadáveres e os colocamos à venda. Os bancos fazem isso, pintam seus produtos como a solução para vida de qualquer um, mas é só pintura.

O mais engraçado nesta história toda é que eu nunca vi uma porta giratória de banco travar em seus comerciais, mas quando você tenta passar por uma, é observado por um vigia mal encarado enquanto um detector de metais te barra a entrada. Muitos clientes, revoltados, acabam tirando a roupa para provar que não têm nada para entrarem na agência. Já lá dentro, quando conseguem uma audiência com o tão educado e solícito gerente, precisam provar que têm bens e garantias como lastro para fazer um empréstimo cujas taxas e juros abusivos poderão tirar tudo deles, inclusive a roupa.

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Publicado em 30 de março de 2012, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Adorei o texto Samuel! Coerente, conciso e, o melhor de tudo, muito realista! Manda ver ai prá gente ler daqui! Beijo prá você! Rejane 😉

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