Arquivo mensal: março 2012

Você já sorriu com uma propaganda de banco hoje?

Se tem algo que me incomoda mais que fazer xixi depois de ter esquecido de  colocar o fraudão é assistir aos belos trabalhos que meus colegas publicitários fazem com um tipo de cliente que nos dá muito prazer em usar seus serviços: os bancos, sim, aqueles que nos presenteiam com altas taxas de serviços e um dos maiores juros práticos em todo o mundo. Mas porque isso me incomoda? É simples e vou tentar discorrer um pouco sobre isso.

Trabalhar a imagem de qualquer marca é uma tarefa pouco simples. São muitas as variáveis que estão em jogo e juntos têm que estar nesta difícil tarefa o gestor da marca, posição frequentemente ocupada por um publicitário, e o departamento de marketing (outro lugar que é cheio deles) que cuida de uma série de muitos detalhes que devem estar alinhados pra não dar caca.

O problema é que os engravatados do departamento de marketing vivem muitas vezes dentro de quatro paredes numa sala climatizada e pouco sentem do que acontece no dia a dia. Eu tive um professor em uma disciplina de marketing que fiz no curso de administração enquanto finalizava minha graduação em publicidade na UNIMEP que ilustrava de forma brilhante isso. Ele dizia que a qualidade de um gestor de marketing pode ser medida colocando um termômetro em sua cadeira. Se estiver com baixa temperatura, ok, ele pode (eu disse “pode”) ser um bom gestor de marketing. Agora, se seu traseiro permanece acomodado sobre as almofadadas cadeiras, a temperatura fica alta e acende a luz vermelha. Esse cara talvez não viva a realidade do mercado, talvez não saiba o que acontece lá embaixo. Fazer marketing é muito mais do que sentar para pensar e planejar, fazer marketing inclui conversas com os consumidores, com os vendedores, com prestadores de serviço lá onde a coisa acontece.

Voltando ao banco, a gente vê o resultado na ponta do iceberg que é a que de fato aparece, a propaganda. Belas peças publicitárias com promessas de fazer as pessoas felizes, de realizar todos os sonhos compráveis possíveis podem não passar de um teatrinho pra te enganar. Seja através de uma encenação de uma família que comprou um novo apartamento financiado pelo banco S ou  o banco I que se preocupa com a natureza e para provar isso mostra um bebê doidão rasgando um pedaço de papel. Tudo isso é conversa bonitinha pra conduzir alguém ao banco.

Este arsenal pode parecer bonito e verdadeiro aos olhos daqueles que não entendem o jogo e não sabem que a propaganda nem sempre se resume à beleza e às poucas palavras de um discurso publicitário muito bem pensado mas que está ali vendendo uma ilusão, vide as letrinhas pequenas que se escondem no rodapé dos comerciais. Esta “venda da ilusão”  é comentada com muita propriedade pelo contestado fotografo Oliviero Toscani eu seu livro A Publicidade é um Cadáver que nos Sorri. Sim, por mais duro que seu discurso possa parecer, muitas vezes maquiamos cadáveres e os colocamos à venda. Os bancos fazem isso, pintam seus produtos como a solução para vida de qualquer um, mas é só pintura.

O mais engraçado nesta história toda é que eu nunca vi uma porta giratória de banco travar em seus comerciais, mas quando você tenta passar por uma, é observado por um vigia mal encarado enquanto um detector de metais te barra a entrada. Muitos clientes, revoltados, acabam tirando a roupa para provar que não têm nada para entrarem na agência. Já lá dentro, quando conseguem uma audiência com o tão educado e solícito gerente, precisam provar que têm bens e garantias como lastro para fazer um empréstimo cujas taxas e juros abusivos poderão tirar tudo deles, inclusive a roupa.

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Os locais e suas músicas

Há alguns anos eu estava em São Paulo e queria dar uma passada numa loja que vendia assessórios e roupas de Taekwondo, o esporte que praticava da época. Para chegar à loja, que ficava a uns 2km do metrô Liberdade, precisei caminhar por uma das principais avenidas daquele bairro e algo me chamou muito a atenção, mas não foi o som ou as imagens daquele local, mas os cheiros. Até hoje, aquela foi minha mais completa experiência olfativa em toda minha vida. Eram lojas e lojas que lado a lado exalavam cheiros diferentes e, embora muitos destes odores estavam sendo sentidos por mim pela primeira vez, automaticamente montavam em minha mente imagens de filmes e reportagens que havia colecionado durante toda minha vida e que estavam lá num nível subconsciente.
Essa experiência foi incrível, mas esta relação “intersentidos” vai mais além.
No ano passado tive o privilégio de assistir a um show da banda Toto, banda esta famosa por suas músicas que marcaram a década de 80. Quando digo que este foi um privilégio, justifico pois talvez este tenha sido o último show da banda que só voltou a tocar junto nesta turnê Europeia para levantar fundos para o tratamento de um de seus músicos que está em meio a uma batalha contra uma doença. A outra justificativa se dá pois exatamente este show, o de encerramento da turnê, seria a gravação oficial do DVD da banda, e estávamos lá, eu e meu irmão. Fazer um show em qualquer lugar já é legal pela qualidade da música e dos músicos, mas poder participar deste show dentro de um castelo é algo inexplicável. O local era o Castelo scarigelo VilaFranca di Verona ao norte da itália.

O show durou pouco menos de 2 horas, mas as músicas que lá doram tocadas serviram para carimbar um momento sublime da minha vida. As músicas que eu lá ouvi continuam provocando em mim as mesmas sensações que senti naquele local. Ouvir algumas daquelas músicas me faz viajar de volta àquele local sem a necessidade de avião, passaporte e a distância da família, me faz rever o que eu lá vivi.
Chega por hoje, vou dar uma chegadinha lá na Itália agora.

O pátio do Castelo onde foi realizado o show.

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EU SOU NOMOFÓBICO

Vou dar uma pausa agora nas minhas cutucadas do Facebook, nas freqüentes Twittadas e na minha cyber-ambição dentro do Foursquare de conquistar a cidade inteira pra voltar depois para o Facebook e compartilhar com todos que sou o maior Mayor da região. Essa parada é pra falar de um assunto sério, um assunto que tem me preocupado há algum tempo. No ano passado eu assisti a um vídeo criado pela operadora de telefonia celular Chinesa Dtac que sugeria que as pessoas se desconectassem um pouco de seus portáteis em prol de relacionamentos humanos presenciais. Chorão do jeito que eu sou que até roteiro de propaganda me faz escorrer lágrimas, eu me sensibilizei com aquela ideia que, por mais que fosse uma sequência de imagens simplesmente figurativas, me falava de maneira muito forte. Comecei a ler mais a respeito disso e descobri que era um nomofóbico.

O termo nomofobia vem do inglês nomophobia, ou NO MObile PHOBIA, que é a angústia de pessoas que não conseguem se desligar de seus dispositivos móveis. Embora eu já tivesse me esquecido do comercial chinês, outro dia eu estava vendo uma matéria na tv sobre o que um jurado pode e não pode fazer durante os dias em que ocorre um julgamento. Além das muitas restrições, não é permitido estar acompanhado pelo celular. “Aí sim, fui surpreendido!” Como não? Comecei a suar de desespero só de pensar num oficial de justiça batendo à porta de casa.

Este  problema cresce à medida em que os smartphones se popularizam. De um HiPhone chinês  até um original Apple, pessoas de todas as classes sociais têm comprado seus gadgets que fazem muito mais que ligações telefônicas, mas são janelas para um mundo virtual maravilhoso. Este paraíso intangível que chega através de uma rede 3G ou wifi oferece muita informação, muito entretenimento e relacionamentos digitais, mas o fascínio pelo prazer que se encontra no lado de lá da tela através destes eletrônicos tem levado muitas pessoas a uma dependência difícil de se livrar. A gente só percebe mesmo que a coisa está ficando séria quando vemos que o Hospital das Clínicas de São Paulo mantém um laboratório para tratar os casos de cyber-dependência.

Mas será que dá pra voltar pra trás? Eu até tento aos poucos evitar colocar meus dedos sobre o teclado touch screen do meu celular, mas confesso que a ansiedade de ler uma nova menção ou um comentário numa postagem minha é muito grande.

Chega de pausa. Preciso voltar ao Facebook. Como diz um amigo meu: Meu trabalho está interferindo no uso das minhas mídias sociais.